O OLHAR QUE DIVERGE OU FRAGMENTOS PARA UMA LINGUAGEM DO DOCUMENTÁRIO
Curiosidade a propósito de outros olhares e outras realidades
Cinema du Réel
Temas políticos
Reflexão
Banalizar os fenómenos abordados.
Fronteira entre o documentário e a reportagem.
Uma história contada com um ponto de vista, uma linguagem cinematográfica, cujo desenvolvimento apresenta uma dramaturgia – com princípio, meio e fim – e que normalmente não se sabe no início como vai acabar
Um bom documentário é capaz de abordar regras para contar uma história e também informar, distrair, comover e dar uma perspectiva do que eu chamaria ‘o invisível’.
EM CADA OBRA, EM ALGUM MOMENTO, EXISTE ALGO INVÍSIVEL QUE TALVEZ DEVESSEMOS DESCORTINAR, DESCOBRIR AO PORMENOR.
Atenção à tendência para o comentário omnipresente, que explica o que todos estão obviamente a ver
Primazia diferença e risco
Entender o mundo para mudá-lo
(A partir da entrevista de António Loja Neves a Anna Glogowski, nova directora do DocLisboa, in Única, Expresso, 2 de Abril de 2011, p.32-34)
TEATRO VERBATIM
(Verbatim = palavra por palavra, exactamente)
O termo teatro verbatim refere-se às palavras de pessoas reais registadas ou transcritas por um dramaturgo durante uma entrevista ou um processo de pesquisa, ou então, palavras que são apropriadas de registos tais como, transcrições a partir de um inquérito oficial. Em vez de adaptar ou reagrupar experiências ou observações dentro de uma situação dramática ficcional, uma peça de teatro verbatim, reconhece e utiliza a situação e o contexto real.
Alguns autores de Teatro Verbatim:
Robin Soans
David Hare & Max Stafford-clark
Alecky Blythe
Richard Norton-Taylor Nicolas Kent
Dennis Kelly
(Fontes retiradas do livro Verbatim Verbatim: contemporary Documentary Theatre, Editado por Will Hammond e Dan Steward. Oberon Books: London)
TENTATIVAS DE MAPEAR ALGUNS PONTOS IMPORTANTES DO NOSSO WORKSHOP
1. Fazer perguntas difíceis.
Vivemos numa época em que tudo é falso: os artigos de jornais são encomendados, as armas de destruição maciça nunca são encontradas, as pessoas que tiram cursos sem chegarem a frequentar a universidade, etc. A ambiguidade entre slogans constantes do género “sê tu mesma” e esta falsidade geral deixa-nos muitas vezes paralisados. A arte e o teatro reaparecem como lugares onde se pode colocar questões difíceis ligadas à realidade. Mas o que é o real?
2. Entrevistar pessoas que têm conhecimentos e experiência relativamente ao problema que queremos considerar e investigar e incluir pessoas que tradicionalmente não são ouvidas no teatro.
3. Escrever entrevistas, transcrever conversas ou recordar episódios passados.
4. Muitas performances têm uma geografia própria bem como uma forma emocional.
5. O performer dirige-se directamente ao público. Fala-lhe directamente.
10% do tempo interage com outro performer em cena (se existir) e 90% do tempo interage com o público. Isto faz com que o público assuma uma papel mais activo do que passivo.
6. A qualidade principal que se requer a uma pessoa, neste tipo criação, é a de contador/a de histórias, que é a chave para a sua relação com o público
UM GRUPO DE ACTORES SENTADOS EM CADEIRAS, OU CAIXAS DE CARTÃO OU NUM SOFÁ CONTAM HISTÓRIAS.
7. ESCUTAR REALMENTE
8. Procurar o momento definidor do trabalho.
9. Procurar estruturas dramatúrgicas e narrativas. Entrevistar pontos de vistas opostos e cruzá-los dramaturgicamente.
10. Construir a dramaturgia de uma peça documentário em redor das narrativas e utilizar recursos como conflitos dramáticos para resolver questões estruturais da peça. Essas narrativas podem ter muitas formas: histórica, emocional, fragmentada, etc.
11. Tentar não antecipar o que vamos encontrar antes de lá chegarmos.
12. Podes improvisar dançar e escrever sobre um entrevista, sobre alguém ou sobre alguma situação.
13. Podes voltar e aprofundar a tua entrevista com essa pessoa.
PERMITIR QUE AS PESSOAS FALEM POR SI MESMAS
14. Atenção à linha subtil que separa a manipulação, quer da tua parte, quer da pessoa a quem estás a entrevistar.
15. Qual é o objectivo em juntar dez, cinquenta, cem, duzentas pessoas numa sala escura para lhes dizermos algo que elas já sabem de antemão?
16. A utilização de material como lápis e papel pois os equipamentos electrónicos podem assustar as pessoas.
17. Estamos em territórios vizinhos da manipulação e da exploração ao representarmos e editarmos histórias reais. O Foco reside na nossa vontade em criar sobre essas mesmas histórias e apresentar um olhar sobre elas.
A REALIDADE SUPERA SEMPRE A FICÇÃO.
18. Podem esperar de vocês, que sejam uma porta ou uma janela, para que exista uma outra visão sobre determinados acontecimentos ou temas.
19. Queremos que o público se importe.
20. Será que faço batota? Será que existe uma tensão constante entre ser verdadeiro para com o meu tema de trabalho, para com os meus entrevistados e em criar alguma coisa que eu sei que vai funcionar em termos teatrais? A resposta é sim, mas não muito.
A VERDADE FACTUAL E A VERDADE EMOCIONAL MAIS A VERDADE CRIATIVA
20 ½. A chave para este trabalho reside na coragem em sermos vulneráveis em frente aos outros.
(Inspirei-me no livro Verbatim Verbatim: contemporary Documentary Theatre, Editado por Will Hammond e Dan Steward. Oberon Books: London)
DRAMATURGIA BASE
A dramaturgia base é a fundação do meu trabalho. Chamo-lhe dramaturgia base pois não está directamente envolvida na construção de um espectáculo, mas está antes, isto é, antes de começar qualquer trabalho ela está lá e por isso determina o processo criativo e os contornos de todas as performances. Esta dramaturgia base consiste numa pergunta, numa premissa inicial e na expectativa de uma resposta criativa. Ofereço-vos esta dramaturgia base na expectativa de que a utilizem como ferramenta de trabalho para o vosso próprio projecto.
#1. O que é que eu estou aqui a fazer?
Esta pergunta não é só minha, também é do Bruce Chatwin e da Joana Craveiro. Coloco-me esta pergunta sempre que começo uma nova criação, aliás coloco-me esta pergunta todos os dias pois é a minha pergunta de vida. Vocês podem usá-la ou colocar a vossa pergunta. Podem responder esta pergunta ou responder à vossa questão. A vossa pergunta pode ser uma de muitas que tenham. Pode ser a pergunta relacionada com o momento que estão a viver ou pode ser a primeira pergunta que vos vem à cabeça quando lêem estas palavras.
O que me interessa mais nesta pergunta é a ligação do eu com o aqui, do eu com o lugar e com as pessoas à minha volta. Isto relembra-me que uma performance é sempre um pretexto para eu estar com os outros, ao mesmo tempo, que me liga e me traz para o momento presente.
Ao colocar-me esta pergunta começo a aquecer uma qualidade de performer que me faz conectar com o momento ao mesmo tempo que desenvolvo qualidades de estar alerta, atenta e focada em escutar o momento. Traz-me para o espaço intersubjectivo que me permitirá estar em relação com cada pessoa do público.
#2. Premissa
Começo normalmente por definir um ponto de partida, uma colecção de inícios que são um guia durante o processo de trabalho e que me ajudam a criar material. Como não crio espectáculos a partir de peças de teatro, tive de arranjar formas de começar. A premissa ajuda-me quando me perco no meio do processo, assim posso sempre regressar à motivação original. Para mim, o ponto de partida é quase sempre autobiográfico, por exemplo, no meu último espectáculo a minha premissa era: “Onde fica a minha Índia?”. Mas o objectivo do espectáculo era construir uma peça auto/biográfica sobre uma poetisa Indiana chamada Eunice de Souza. A autobiografia faz-me reflectir sobre temas como verdade, memória, história(s), ficção, autenticidade que são temas que me interessam trabalhar em teatro, também é uma forma mais directa de chegar aos outros, ao público. Nem sempre funciona e nem sempre a utilizo.
#3. Resposta Criativa
Tal como com a mente crítica, nós queremos manter a mente criativa empenhada. Crítica não significa negativa. Significa discernimento, ou a capacidade de separar em partes. Para onde quer que olhemos, o ponto em que nos focamos faz com que a nossa energia pareça proliferar. Se nos concentrarmos num problema, começamos a ver problemas em toda parte. Tornamo-nos naquele que é definido pela percepção da proliferação de problemas. Devido a esta abordagem, a mente criativa, muitas vezes parece desligada quando começa o discurso crítico. Se nos concentrarmos antes, num momento milagroso, começamos a ver momentos miraculosos em toda parte. Tornamo-nos naquele que é definido pela percepção da proliferação de milagres. Tenta a segunda destas abordagens. Pensa numa resposta criativa como sendo o teu próprio trabalho, que não teria existido sem o trabalho ao qual estás a responder. Começa com o momento mais óbvio milagroso que vês no trabalho do outro. O que é óbvio para ti pode não ser óbvio para outra pessoa. Podes ter uma associação com esse momento. Podes querer ecoá-lo, multiplicá-lo, ou trabalhar com ele de alguma outra forma. Trabalha a partir desse momento. O momento pode ter sido intencional ou acidental. Em vez de um momento, o teu ponto de partida pode ser um elemento estrutural, um elemento visual, um elemento espacial, qualquer coisa. Nós queremos desestabilizar as fronteiras entre os modos de crítica e os modos criativos para os enriquecer a ambos.
Goat Island, Small Acts of Repair. Tradução de Maria Gil
A noção de resposta criativa foi apropriada da companhia americana Goat Island com quem fiz um workshop em Glasgow na Escócia. Esta noção de que cada trabalho é uma resposta a trabalhos de outros criadores, a momentos que nos inspiraram no trabalho de outras pessoas, faz com que o trabalho tenha várias camadas invisíveis e que se dilata e expanda.
Esta noção também me é útil quando trabalho com outras pessoas. Responder criativamente ao outro é relacionarmo-nos de uma forma positiva com os outros criadores, partes do processo, ao mesmo tempo que criamos laço de intimidade criativa.
Estar numa relação próxima e íntima com o outro não significa estar perto dela, mas é uma tarefa que desempenhamos de forma a aproximarmo-nos de uma região que não nos é familiar: uma região que levanta questões sobre como se deve um performer comportar, como se deve um indivíduo comportar.
(Tradução livre de Maria Gil, IRIGARAY, The way of Love)